domingo, 12 de maio de 2013

“Na terra do Pai Banana”




A manhã acordou ensolarada e o dia previa-se lindo, bem ao contrário dos sentimentos que nublavam a cabeça e o coração de Suzana. Portanto, tomou uma decisão radical, ia pedir a demissão. Falou com Beto, o seu marido, antes de saírem os dois para o trabalho. Ele questionou a sua decisão, afinal ela ainda não tinha nenhuma outra opção e ele também estava a passar por momentos difíceis na empresa onde trabalhava, com trabalhadores a serem demitidos compulsivamente e aviso prévio.


- Estamos num momento “corda bamba” lá no trabalho querida. E se me demitirem logo depois de pedires demissão? Vamos ficar na penúria, passar fome?

- Não vamos nada passar fome Beto, afinal temos as nossas poupanças. O que não dá para aceitar é a falta de respeito. Já viste o que é tu trabalhares como escravo, manteres a empresa em pleno funcionamento, com bastante lucro, visibilidade e credibilidade e agora, de repente, porem-se a contratar consultores para fazer a mesmíssima coisa que nós sempre fizemos?

- Sim, eu sei que não é fácil querida, nós estamos a passar pelo mesmo lá na empresa. Mas precisamos ter calma.

- Calma?!?!?! Eles as vezes ainda reclamam do que tu fazes para virem fazer o mesmo depois! Mas ganham o dobro ou o triplo, têm casa, transporte, alimentação! E nós?
Sim, mas eles são expatriados, essas regalias são para compensar a deslocação e o afastamento da família.

- Como se tivessem sido obrigados a vir... Não é justo, temos pessoas capacitadas na empresa, sempre tivemos. Agora de repente já não valemos nada? Se é assim, vou valer nada noutro lugar, onde não tenha que aturar faltas de respeitos de quem não percebeu ainda que a escravatura acabou e que agora somos donos do nosso próprio país.

- Mas se sais não estás mesmo a entregar-lhes o “país”?

- Ah! Mas...

- Pois, não tinhas pensado nisso não é? Pensa. Pensa melhor antes de tomar qualquer atitude definitiva.

- Hum... ok.


Suzana saiu de casa naquela manhã, muito pensativa. E passou o dia assim nesse estado contemplativo, analisando os prós e os contras, pesando, medindo, decidindo. Como se tivessem pressentido o tsunami que se formava dentro da chefe do departamento financeiro da empresa, quase todos os directores quiseram falar com ela.

Uns quiseram-na acalmar, com a alusões a eminentes promoções, outros foram mais práticos e falaram directamente de aumentos salariais. Mas na mente da contabilista, o problema não residia única e simplesmente com a questão financeira ou de progressão na carreira. O problema maior eram os mandos e desmandos dos consultores que a certa altura pareciam ter mais poderes que os próprios directores.

Enquanto conduzia, fazendo o caminho de volta para casa (tinha adiado o pedido de demissão “sine die” até que tivesse analisado a coisa por todos os ângulos ), Suzana recapitulou o episódio mais marcante daquele dia, quando o director financeiro foi desautorizado no meio de uma reunião com os funcionários, pelo consultor contratado para o auxiliar. “É óbvio que isso não pode ser feito, o senhor director aqui enganou-se, o que ele quis dizer é que...”. Nestes termos o director tinha sido interrompido e nestes termos tinha a reunião continuado.

Sem conseguir aguentar muito, ela tinha-se levantado e saído da sala de reuniões. Mais tarde o mesmo consultor apareceu na sua sala para saber o porquê da sua saída a meio da reunião “mais produtiva do semestre”. Teve que esperar quase 15 minutos em que ela atendia a várias chamadas, tanto dos colegas quanto dos bancos e dos fornecedores. Quando finalmente lhe concedeu algum tempo ele voltou a fazer a mesma pergunta, ao que ela respondeu, fazendo um gesto para o telefone: “assuntos inadiáveis”.

Sentindo que tinha pouco espaço de manobra, em menos de dois minutos depois ele retirou-se. E Suzana congratulou-se por ter conseguido resistir a tentação de o mandar ir pastar búzios. As sua atenção voltou do lugar chamado memória, de volta a realidade, porque no rádio ligado há tanto tempo, uma música começou a tocar.
“Wakimonó kia, patrão é o colono, aqui... na terra do Pai Banana”



Publicado no NJ 26.04.2013

4 comentários:

Felix J Smith Kudji disse...

Bom!!

Felix J Smith Kudji disse...

Bomm!!

Kamalee disse...

Gostei imenso do texto, mas falta a outra face da moeda. Ja estive em Angola a trabalhar, e era uma dessas "consultoras expatriados". No entanto, tenho noção do pleno "desrespeito" pelos nacionais, uma vez que pratica/ tds poderiam, com a formação certa, exercer a função para a qual eu e os meus colegas fomos contratados.
Quando disse a outra face da moeda, referia-me a um outro ponto de vista, verificado por mim, e por tantos outros angolanos com quem já falei, e eles proprios (os nacionais) têm noção do porquê da contratação de expatriados, e discrepância de ordenados. É que, e peço já desculpas se ferir a suscepetibilidade de alguem, muitos deles não gostam nem querem trabalhar. A verdade, é que ambicionam o dinheiro fácil, sem o minimo esforço de trabalho ardúo diário, e isto, no meu humilde ponto de vista, não esta certo. Porque de fato, o expatriado ganha mais, mas, esta deslocado (por opção própria ou não) fisica e emocionalmente da sua terra Natal, e ha que haver compensação por isso. Acredito que falta uma certa consciencialização do povo angolano para "tapar" esta lacuna que existe no mercado. Verdade que já se estão a fazer alguns esforços nesse sentido, como por exemplo na contratação além fronteiras, onde vão buscar os nacionais e apresentam boas condições salariais de forma a que este retorne ao país, e queira lá permanecer; é deixado o know-how dos consutores externos; etc... Com o tempo, tudo se ajeitará em Angola, mas será preciso a colaboração de todos, nacionais e nao nacionais.

Kamalee disse...

Gostei imenso do texto, mas falta a outra face da moeda. Ja estive em Angola a trabalhar, e era uma dessas "consultoras expatriados". No entanto, tenho noção do pleno "desrespeito" pelos nacionais, uma vez que pratica/ tds poderiam, com a formação certa, exercer a função para a qual eu e os meus colegas fomos contratados.
Quando disse a outra face da moeda, referia-me a um outro ponto de vista, verificado por mim, e por tantos outros angolanos com quem já falei, e eles proprios (os nacionais) têm noção do porquê da contratação de expatriados, e discrepância de ordenados. É que, e peço já desculpas se ferir a suscepetibilidade de alguem, muitos deles não gostam nem querem trabalhar. A verdade, é que ambicionam o dinheiro fácil, sem o minimo esforço de trabalho ardúo diário, e isto, no meu humilde ponto de vista, não esta certo. Porque de fato, o expatriado ganha mais, mas, esta deslocado (por opção própria ou não) fisica e emocionalmente da sua terra Natal, e ha que haver compensação por isso. Acredito que falta uma certa consciencialização do povo angolano para "tapar" esta lacuna que existe no mercado. Verdade que já se estão a fazer alguns esforços nesse sentido, como por exemplo na contratação além fronteiras, onde vão buscar os nacionais e apresentam boas condições salariais de forma a que este retorne ao país, e queira lá permanecer; é deixado o know-how dos consutores externos; etc... Com o tempo, tudo se ajeitará em Angola, mas será preciso a colaboração de todos, nacionais e nao nacionais.