quinta-feira, 15 de março de 2012

Amor já não é o que era

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José entrou sorrateiramente no prédio onde Maria trabalhava. Cumprimentou discretamente a secretária e foi seguindo em direcção da sala da namorada. Bateu a porta e esperou depois do “entre”. Como ninguém entrasse a moça levantou-se e foi ela mesa abrir a porta, reclamando com os seus botões. Quando abriu a porta com uma certa rispidez, Maria ficou boquiaberta. Lá estava o seu namorado de quatro anos a segurar um carrinho de mão cheio de rosas vermelhas. Era dia dos namorados. Bonita a cena não é? Meio lamechas, hão de dizer alguns, muito romântica dirão outros. Eu digo: triste. Acho tudo muito bonito, mas profundamente triste. O ser humano perdeu de tal maneira a noção do normal, das demonstrações espontâneas de amor e carinho que até para ser romântico extrapola. Mais do que mostrar ao companheiro o que sente, o objectivo passa a ser mostrar aos outros como é grande esse sentimento. Patético. Parece-me que a noção que as pessoas agora têm do próximo está muito ligada ao slogan publicitário da Unitel, “o próximo mais próximo”. O próximo na verdade começa a estar distante. Imbuídos de um espírito consumista desenfreado, os relacionamentos começam a pautar-se pelo eu tenho, eu dou, eu consigo. E tudo é precedido do eu. As pessoas namoram consigo próprias, com a imagem que têm de si. O dia das namoradas – sim, porque aparentemente só elas recebem ou esperam receber presentes, deveria chamar-se dia do comércio. Assim como o Natal e os dias dos pais. Gestos simples como trazer uma flor do jardim da praça (também já quase não há jardins), porque se lembrou da namorada, ou telefonar ao namorado sem ser para pedir, escasseiam. Datas especiais perderam o seu simbolismo para se tornarem grandes points comerciais. As pessoas parece que guardam meses de relacionamento para serem comemorados e exaltados num único dia. Passam o ano todo sem darem flores ou presentes, 12 meses sem beijarem-se ou abraçarem-se em público e num único dia querem fazer tudo! É a correria às lojas, os ursos de pelúcia para cá os ramos de rosas para lá, bancadas montadas nos passeios a vender e embrulhar presentes em papéis com desenhos de corações… Acho chato. Ah! E nessa altura todo mundo diz “amo-te” ou “eu te amo”, conforme as vontades e os sotaques. Seria bonito se a expressão não se tivesse banalizado tanto. As pessoas falam de amor com uma velocidade supersónica. Conheceu ontem, já ama hoje. A palavra amor está tão banalizada que nos próximos dicionários devia vir com a seguinte discrição: “igual à ilusão, ou nada dependendo do contexto”. “O amor é fogo que arde sem se ver” já não funciona! Tem que se ver tudo muito bem, aos mínimos detalhes. Camões se fosse vivo faria versos com euro e choraria pela falta de zeros na conta bancária. O amor já não se constrói, compra-se, de preferência em dinheiro vivo para mostrar o poder aquisitivo. “Um amor e uma cabana” também só resulta se a cabana tiver uns quatro quartos com casa de banho privativa. Antes vendia-se o corpo, hoje vende-se tudo, a alma, a moral, a dignidade o amor… Um dia desses hão de se lembrar de fazer saldos, “amor e dignidade 50% de desconto”. No tempo dos meus avós os relacionamentos eram sérios, senão, não eram relacionamentos. As pessoas “ficam” ou curtem”, têm relacionamentos abertos, casamentos abertos! Eu acho que nasci no século errado… É certo que no tempo dos avós, havia muitos casamentos à três ou quatro. A “outra”, não é uma invenção do Matias Damásio, mas a coisa pelo menos pretendia-se secreta, naquela altura. No tempo dos pais, eles mandaram lixar o secretismo e escancararam a coisa. Ter duas famílias deixou de ser tão absurdo, mesmo que a pessoa não tivesse condições de sustentar se quer uma. E a mulher que resolvesse separar-se? Bem… não fica bem à uma senhora reproduzir a lista de nomes que lhe eram atribuídos. Só garanto que não eram elogios gentis. No meu tempo então, oficializaram a infidelidade, cantaram hinos à tal “outra”. Vangloriam-se por serem as próprias… E eu preocupo-me com a geração que aí vem. O que será deles? Não sei. Só sei que o amor já não é o que era.
NJ 213

4 comentários:

Leyla Cardoso disse...

Falaste tudo, Aoa!!! Hoje em dia tudo é motivo para "mostrar", até se torna ridícula a forma como as pessoas encaram o dia dos namorados...não se contentam em demonstrar apenas à pessoa amada...precisam mostrar à todo o mundo que estão "in love". Embora eu tenha achado fofo o cenário do "carrinho de mão cheio de rosas vermelhas", acharia mais fofo ainda se esse presente fosse entregue não só no dia 14 de Fevereiro, como também numa data em que eu não estaria NADA a espera. <3

Irina simiao disse...

Sabias palavras, a autora descreve perfeitamente a sociedade actual e sou da mesma opinião, no tempo em que os valores e os costumes estão em constante mudanças .
Meus parabéns o texto faz nos reflectir !

Irina simiao disse...

Sabias palavras , partilho da mesma opinião, a autora descreve claramente a sociedade actual e suscita um pensar no mundo em que andamos onde as costumes e valores estão em constante mudança.
Quero dizer lhe que adorei o texto.
Meus parabéns!

Kamalee disse...

Concordo plenamente com tudo o que disseste! Fico abismada com a "normalidade" do que se diz ser amor hoje em dia.. A banalidade e vulgaridade com que interpretam o "amor".. enfim.. ñ preciso alongar me pq ja disseste tudo ;) Gostei