sábado, 25 de julho de 2009

Octávio

Octávio acordou transpirado e sobressaltado, sentiu um medo enorme. Nesse estado de espírito, ele levantou-se e foi caminhando sem fazer barulho até ao seu antigo quarto. Há mais de um ano que ele não dormia naquele quarto. Ele e Susana haviam discutido barbaramente naquele dia. Ela acusara-o de ser infiel e pedira o divórcio. Mesmo sabendo que a mulher tinha razão, Octávio reagira mal, insultando a esposa e dando-lhe uma surra. Foi a primeira vez que levantou a mão para uma mulher, e logo para a mãe do seu filho. Depois dos ânimos se acalmarem ele caiu em si, arrependeu-se mas era demasiado orgulhoso para reconhecer um erro e pedir desculpas.
Eles tinham-se casado há mais de sete anos numa cerimónia bonita, só para os familiares e amigos mais próximos. Tinham um filho pequeno, Daniel, de cinco anos. Felizmente naquele dia Daniel tinha ido passear a casa dos avós, não tendo assitido, assim, aquela triste cena. Octávio e Susana eram os dois trabalhadores independentes, ele médico com consultório próprio e ela advogada, também com firma própria. Os dois eram óptimos no que faziam, profisssionais dedicados e cuidadosos, eram adorados pelos colegas, pacientes e clientes.
Na relação deles tudo correu bem, havia respeito, cumplicidade, confiança, paixão e harmonia. Tudo mudou quando Octávio arranjou uma amante. Ao contrário do canta Matias Damásio na musica “A Outra”, essa nova mulher queria vê-lo todos os dias, e ele fazia as suas vontades. Começou por deixar de jantar em casa, depois foi faltando aos almoços também, sempre alegando reuniões e consultas de urgencia. Susana foi relevando até que por fim ele informou que ia voltar a fazer piquetes noturnos no hospital. Diante de tal revelação, ela revoltou-se e perguntou ao marido se além de tudo ele também ia dormir fora de casa!
Encurralado e sem saber o que responder Octávio levantou a voz e mandou calar a mulher. Mas quando Susana não o obedeceu ele ameaçou bater-lhe. A ameaça só conseguiu agita-la ainda mais, pelo que começou então a gritar com o marido. Irritado e alterado como o Octávio estava, só lhe ocorreu fazer uma coisa para calar a mulher. Levantou a mão e deu-lhe um estalo tão grande que Susana caiu para trás, batendo com a cabeça no chão. Ainda levado pela raiva Octávio sentiu uma repentina vontade de pontapear a mulher ali deitada, e foi o que ele fez. Além dos pontapés foram acrescentados socos e abanões.
Alertados pelos gritos de Susana, os vizinhos acudiram mesmo a tempo de impedir Octávio de estrangular a mulher! Foi um choque total, ninguém conhecia essa faceta dele. Aquele casal sempre tão simpático e cordial, que parecia não ter problemas revelara-se uma grande e triste surpresa. Levaram a Susana as pressas para o hospital Aires de Meneses, onde lhe foi diagnosticado traumatismo craniano, fractura do maxilar e de duas costelas. Octávio continuou em casa, aparentemente em estado de choque. Nem ele conseguia entender o que lhe tinha passado pela cabeça para agir daquela maneira tão selvagem.
Susana ficou dois meses internada no hospital, quase sem se poder mexer, sendo alimentada primeiro por via de uma sonda, e depois com a ajuda da mãe e das irmãs. Toda a família dela, tirando a mãe e as irmãs, aconselhavam-na a esquecer o assunto e perdoar o marido, pois ele não havia agido de má fé. Quando ela dizia que de boa fé também Octávio não tinha agido, eles respondiam simplesmente que ele se tinha descontrolado um “bocadinho”. Então indignada Susana discutia com eles e lembrava-lhes aos berros que o marido nem se dignara a pedir perdão nas poucas vezes que a tinha ido visitar.
Foi assim que ao fim do terceiro mês depois do fatídico dia, e contrariando quase toda a sua família e a maior parte dos amigos, Susana entrou na justiça com o pedido de divórcio. Octávio apanhou um susto quando foi notificado e mesmo sabendo que a culpa era sua, pôs-se a difamar a mulher em praça pública e entre os amigos em comum. Depois vendo que a mulher não desistia, chantageou-a, ameaçando tirar-lhe o filho. E de facto com a ajuda de amigos e até de alguns familiares de Susana, quase ficava com a guarda do filho.
Vendo que não conseguia demover a mulher, Octávio recorreu então á “estratégia” ciúmes, começando a desfilar abertamente com a tal amante, uma enfermeira do posto médico. E foi esse comportamento que o destruiu, pois não faltaram testemunhas que quisessem contar a juíza responsável pelo processo, como Octávio era infiel a esposa.
E um ano depois do fatídico dia, precisamente no dia 12 de Julho, lá estava ele naquele quarto outra vez. Nunca mais voltara a dormir naquela cama, agora dormia no quarto que fora do filho. Enquanto relembrava todos os episódios daquele drama em que se metera, amanheceu, mas Octávio não reparou no sol esplendoroso que se fazia sentir naquele domingo, nem nas pessoas atarefadas, correndo para a praça de independência a fim de participarem das festividades do dia da independência… Octávio, já não via nem sentia nada há muito tempo

Um comentário:

Zigiefrid ou Rubéns disse...

Triste fim. Mais ainda haverá poesia na vida das pessoas e ainda haverá muita vida para as pessoas.

é o que eu espero.